
Neste domingo, dia 4 de outubro, mais de 158 milhões de eleitores brasileiros vão votar em 563.910 urnas eletrônicas espalhadas pelo país, e a data também marca uma efeméride pouco lembrada fora do universo jurídico: a urna eletrônica completa 30 anos de uso no Brasil em 2026. Para quem acompanha hardware de perto, a história desse equipamento é uma aula e tanto sobre um princípio de engenharia que o mercado de alta performance raramente coloca em prática: às vezes, a decisão mais inteligente é usar menos poder de processamento, não mais.
Como tudo começou
A ideia de mecanizar o voto no Brasil remonta ao Código Eleitoral de 1932, mas levou mais de 60 anos para se tornar realidade. O processo de licitação para o primeiro equipamento, aberto pelo Edital TSE 002/1995, reuniu três propostas bem diferentes entre si: a IBM apresentou um projeto baseado em notebook, a Procomp propôs algo parecido com um quiosque de autoatendimento bancário, e a Unisys venceu a concorrência com um design próprio, que se tornou a referência visual da urna até os dias de hoje.
O primeiro modelo, batizado de UE96, estreou nas eleições municipais de 1996, usado em todas as capitais e em municípios com mais de 200 mil eleitores, cerca de 30% do eleitorado da época. Em 1998, a cobertura se ampliou para municípios com mais de 40 mil eleitores (537 cidades), e essa edição também foi a primeira a exibir a foto de cada candidato na tela. Em 2000, o sistema passou a ser usado em todo o território nacional, tornando a votação brasileira 100% digital.
Olhando para dentro da máquina: três décadas de hardware
Um dos aspectos mais interessantes da urna eletrônica é justamente o quão modesto o hardware sempre foi: de propósito. Os dados técnicos oficiais, divulgados pelo próprio TSE, mostram a evolução:
UE96 (1996): fabricada pela Unisys Brasil. Processador Intel 386SX de 40 MHz, 2 MB de memória RAM, armazenamento em dois disquetes de 1,44 MB (depois substituídos por cartões flash internos e externos de 15 MB), teclado de membrana com numeração em braile, visor LCD monocromático de 9,4 polegadas, sistema operacional próprio chamado VirtuOS, e apenas 11 kg de peso.
UE2009: fabricada em parceria entre Diebold e Procomp, com mais de 194 mil unidades produzidas. Aqui aconteceu o salto mais importante da história da urna, não em velocidade, mas em segurança: foi introduzido um hardware de segurança dedicado, baseado em um processador ARM separado, cuja única função é verificar se o software que está rodando na máquina é autêntico e foi assinado digitalmente pelo TSE. Esse mecanismo batizou a urna brasileira de T-DRE (Trusted Direct Recording Electronic), uma arquitetura de segurança que a Justiça Eleitoral descreve como única no mundo, já que o conjunto urna + sistema só funciona se ambos forem originais. Foi também quando os disquetes deram lugar a pen drives USB para registrar os resultados, e o sistema operacional baseado em Linux (chamado Uenux) passou a rodar nas máquinas, uma distribuição enxuta, desenvolvida pela própria Justiça Eleitoral, que remove de propósito qualquer suporte a dispositivos de rede e não possui terminal de comandos.
UE2010, UE2011, UE2013 e UE2015: mantiveram a mesma base de hardware da UE2009 (processador Intel Atom Z510P de 1,0 GHz, 512 MB de memória DDR2), com evoluções concentradas principalmente no hardware de segurança e no sistema de criptografia, sem mudanças relevantes de capacidade de processamento entre essas gerações.
UE2020: fabricada pela Positivo Tecnologia, com cerca de 225 mil unidades adquiridas. Aqui veio o salto de performance mais expressivo da história do equipamento: processador Intel Atom E3940 de 1,60 GHz e 4 GB de memória RAM DDR3L, representando uma capacidade de processamento 18 vezes maior que a geração anterior. A UE2020 também foi a primeira a receber tela sensível ao toque no terminal do mesário, bateria de lítio-ferro-fosfato (substituindo as antigas baterias de chumbo-ácido) e certificação do perímetro criptográfico com base nos requisitos da ICP-Brasil.
UE2022: tecnicamente idêntica à UE2020; as diferenças entre as duas se limitam a pequenos detalhes visuais no gabinete.
Em paralelo ao hardware, a identificação biométrica dos eleitores começou a ser testada em 2006, em projeto piloto, e foi incorporada progressivamente nos anos seguintes.
A decisão de engenharia que importa mais que qualquer especificação
Para quem lida com hardware todos os dias, o detalhe mais revelador da urna eletrônica não está em nenhuma ficha técnica, está no que ela deliberadamente não tem. O equipamento não possui placa de rede, Wi-Fi, Bluetooth nem suporte a chip de celular, e opera completamente off-line durante toda a votação. O próprio sistema operacional, o Uenux, é configurado para suportar apenas o hardware da urna: todo suporte a dispositivos de rede, teclado externo e mouse é removido da instalação, e não existe terminal de comandos disponível. Antes mesmo de iniciar, o equipamento verifica as assinaturas digitais de cada programa instalado, recusando-se a rodar qualquer coisa que não tenha sido oficialmente assinada.
Essa filosofia de projeto é o oposto do que costuma orientar o mercado de hardware de alta performance, voltado a maximizar poder de processamento, conectividade e capacidade de expansão. A urna eletrônica prova que, quando o objetivo é segurança e confiabilidade acima de tudo, reduzir a superfície de ataque (cortando conectividade, simplificando o sistema operacional, isolando o hardware de qualquer rede) pode valer mais do que qualquer ganho de performance.
O resultado dessa estratégia, segundo Giuseppe Dutra Janino, um dos responsáveis pela criação do sistema, fala por si: em três décadas de uso, não há um único caso comprovado de fraude no processo de votação eletrônica brasileira. O código-fonte do sistema também é aberto a auditorias externas regularmente, só este ano, representantes do Senado Federal, da Sociedade Brasileira de Computação e da Confederação Nacional do Comércio inspecionaram os códigos-fonte das Eleições 2026.
Uma nova camada de segurança para 2026
Para a eleição deste domingo, a Justiça Eleitoral adicionou mais uma camada de verificação: o Boletim de Urna, documento que registra os resultados de cada seção eleitoral, passou a contar com um QR Code acompanhado de assinatura de hardware, gerada pela chave privativa de cada urna individualmente, reforçando ainda mais a cadeia de verificação entre o que foi votado e o que foi apurado.
O que fica da urna, 30 anos depois
A urna eletrônica não é hardware de ponta, nunca foi, e essa nunca foi a intenção de quem a projetou. É, antes, um estudo de caso de como um propósito bem definido (segurança, confiabilidade e simplicidade de operação) pode orientar decisões de engenharia que soam contraintuitivas para qualquer pessoa acostumada a pensar em potência como sinônimo de qualidade. Em um momento em que o mercado de hardware gamer e profissional segue correndo atrás de mais VRAM, mais núcleos e mais capacidade de processamento, vale lembrar que a pergunta certa nunca é só "quanto mais rápido isso pode ser", mas "o que esse projeto realmente precisa para cumprir bem o que promete".
Fontes: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), Senado Notícias, Wikipédia - documentação oficial e reportagens de 2025/2026 sobre a história e as especificações técnicas da urna eletrônica brasileira.